Textos
FABULOSAS DESORDENS
Daniela Labra
Fabulosas Desordens surgiu da reflexão sobre a institucionalização do grafite-arte como linguagem visual contemporânea e suas relações com a cidade, com os meios de comunicação e principalmente com a produção de arte atual, aproximação que vem se dando no meio cultural desde os anos 80.
Participam da mostra 18 nomes do grafite-arte nacional e estrangeiro, entre coletivos e individuais, que começaram suas práticas no exercício anônimo da escrita na rua, e cujo talento os leva hoje a atuar em campos como a publicidade, televisão, cinema, moda, artes plásticas, ilustração e projetos educacionais, no Brasil e no mundo. Alguns dos que estão no evento iniciaram suas atividades ainda nos anos 80, como os paulistas Binho e Vitché; o alemão Loomit, responsável pela criação do chamado estilo tridimensional, no qual a técnica da perspectiva é aplicada à escrita grafitada; e DAZE, representante da old school de Nova York. A exposição conta também com a dupla francesa Scien & Klor, pioneira em inserir a estética grafiteira em peças de design, na década de 1990. Além desses, estão reunidos nesta casa outros representantes de peso da geração que começou pelas ruas, na virada deste século: Flip, Nunca, Acme, Zezão, Akuma, FBC, Ment & Bragga (Nação Graffiti), Onesto, Marinho, Tinho, Stohead (Alemanha) e SAN (Espanha).
A mostra se concentra em brasileiros do eixo Rio-São Paulo, além dos internacionais, sendo assumidamente um recorte e não pretende ser uma verdade sobre este ou aquele tipo de produção dos artistas egressos do grafite no Brasil e no exterior, posto que seria necessário um projeto descomunal para abrigar tantos nomes e estilos que ficaram de fora. Os principais critérios para a seleção dos participantes foram o tempo e o modo de inserção no mercado de trabalho e na mídia de cada um. Todos os autores aqui reunidos atuam em diversos segmentos da indústria do entretenimento há pelo menos seis anos, e também no mercado de arte – com trabalhos apresentados em mostras internacionais coletivas e individuais em galerias. Muitos são autodidatas enquanto outros têm formação acadêmica em artes. Em comum: são compulsivos em desenhar sobre amplas superfícies e fascinados pela ocupação de locais públicos deteriorados, ignorados pelo passante acostumado ao caos visual urbano.
Fabulosas desordens acontece em um momento de superexposição do grafite-arte na mídia, em especial no Brasil. Se há seis anos, talvez com exceção de São Paulo, ele era considerado apenas vandalismo estetizado, hoje é a “bola da vez” em projetos de revitalização de espaços públicos e campanhas de marketing para o consumidor jovem.
Com suas pinturas coloridas, muitas vezes politicamente descompromissadas, a assimilação social da cultura do grafite estimulou, por um lado, uma espécie de estética da atitude radical-fashion para consumo e por outro, graças ao modo de trabalho coletivo e entranhado na cidade dos escritores, projetos de inclusão social inspirados no lado fraterno da prática grafiteira.
De modo geral, a institucionalização do grafite se deu primeiro via mercado de arte, nos anos 80, uma década após seu alastramento como linguagem gráfica entre os jovens pichadores dos guetos pobres da Nova York dos anos 70. O primeiro pichador a ingressar com um trabalho de arte no circuito de galerias comerciais foi o nova-iorquino Jean-Michel Basquiat, filho da classe média e conhecedor da história da pintura no século XX.
No que concerne ao Brasil, a assimilação da cultura do grafite se deu no final dos anos 80, especialmente em São Paulo, graças à visibilidade da stencil art de artistas plásticos como Alex Vallauri e Artur Matuck, e à moda pop norte-americana, que divulgou Keith Harring. Porém, ao mesmo tempo em que o grafite acadêmico obtinha sucesso, a pichação de anônimos se intensificava em nossas grandes cidades, evoluindo nos estilos e sendo assimilada como grafite-arte em meados da década de 1990, em eventos promovidos pelo poder público e privado. No Rio de Janeiro, por sua vez, a institucionalização do grafite ainda não completou dez anos e foi de início impulsionada principalmente por ações socioeducativas.
Surge então a pergunta: grafite é arte? Ainda que muitos dos trabalhos não lidem com a matéria subjetiva que pressupõe a arte contemporânea, e que esta prática não tenha suas raízes em algum manifesto da arte moderna, há uma técnica particular e uma pujante vitalidade expressiva que não devem ser desconsideradas.
Quando o grafite é adequado para algum suporte no interior de uma sala, pode-se afirmar que ele deixa de ser grafite para se tornar pintura, escultura, instalação e objetos que trazem potencialmente em sua forma a gana de intervenção visual no espaço exterior. Assim, o que se origina como grafite na rua, na galeria se torna obra plástica constituída de poética literal ou formal, e não tanto por alguma sutileza conceitual. E nesse caso, tal afirmação não é exatamente pejorativa.
Para refletir sobre os vários lugares e modos em que o grafite está inserido hoje, este projeto se apresenta em quatro eixos principais: exposição, ciclo de debates, um fanzine com imagens e textos, e pinturas em paredões no centro do Rio de Janeiro, que ficarão na cidade até que o tempo as devore ou o grafite envelheça.
O termo “grafiteiro” aqui pressupõe o conhecedor de uma subcultura que vai além das instituições, mesmo que aparentemente ela esteja presa numa vitrine iluminada. Este projeto é resultado de pesquisa teórica e da colaboração de artistas-grafiteiros e pesquisadores convidados, todos profissionais que se nutrem da cultura gerada em nossas desordenadas urbes em processo de implosão.